O quarto de número vinte e três do Lar Franciscano de Alagoinhas era como os outros do asilo, à exceção de seus inquilinos (eu, que pela primeira vez saíra de casa, aos 19, e Sabater, jornalista espanhol, muito mais vivido, mas chocado tanto quanto eu, senão mais) que estavam ali como católicos itinerantes, não em favor das senhoras residentes, mas da igreja em geral.
Última porta do corredor com a janela para o velório da cidade. Piso azul, móveis escuros lar-de-cupim, lençóis de hospital e uma cadeira para cada um de nós configuravam o cenário do que seria nosso lar durante meses. Da varanda, contudo, o ar era muito fresco: a menos de cem quilômetros de Salvador, sentíamos a brisa do Atlântico e víamos cruzar o céu aviões que nos levavam diariamente pra casa.
Com nossas vizinhas tínhamos em comum apenas as refeições (as sopas e tapiocas e aipins), a televisão, o jardim e a capela. Indiretamente compartilhávamos a miséria da velhice, do abandono e da tristeza.
Da porta de entrada ao piso superior, onde ficava nosso quarto, o ar que respirávamos fedia a urina das senhoras incontinentes. Dos quartos apagados ouvíamos alguma asilada chamar em vão uma empregada ignorante. De todos os lados a atmosfera era viciada.
A visita familiar das internas, passado o primeiro mês, se reduzia ao dia das mães; após uma semana internadas passavam por histeria, tentavam fugir e jogavam a comida no chão. Depois entravam em estado de apatia. – Uma senhora, que não me lembra o nome, repetia todos os dias: “estou certa aqui? É aqui o meu lugar?” E outra nos apresentava todos os dias a si mesma, dizendo que só estava esperando o filho voltar de Ipojuca do Norte para buscá-la.
As funcionárias do asilo por sua vez tinham sua caridade provada diariamente: como se não bastasse cuidar da mãe de outros, limpá-las e alimentá-las por um salário, era sobre elas que a rejeição sofrida encontrava “expiação”. As internas, invariavelmente, as desrespeitavam e até agrediam. Desde o serviço mais simples como cortar as unhas era guerra: daqui se esperneava como criança, dali a tevê ficava de castigo...
Vivíamos sensivelmente a degradação humana. – As toalhas de banho que usávamos perdiam o cheiro de naftalina com dois banhos para cheirarem fezes até o fim da semana quando trocariam novamente (ainda tenho manchas de micose sobre o corpo, quatro anos depois). Mesmo dispondo de toda vitalidade, o contexto nos fazia experimentar a humanidade crua. Todas ali tinham consciência (até um ponto, quando não enlouqueciam) de que a vida se encerrara potencialmente. A ilusão acabara.
Da janela do nosso quarto ouvíamos de manhã à noite o “segura na mããão de Deus, se-gu-ra na mão de Deus” das carpideiras no velório. Um dia nos chamavam anjos, no outro eram elas. – Vi pela primeira vez alguém dar seu último suspiro.
Por hora o que nos diferenciava dos demais hospedes do Lar Franciscano era apenas nosso chaveiro de São Bento com a chave da rua.
Li todos. Gostei muito. Você leva a gente com você nas suas experiências. Parabens.
ResponderExcluirMuito, muito bom ! Por enquanto este foi apenas o primeiro post que li, e adorei. Impossível não se sentir no ambiente, vendo o asilo e as senhoras que ali estavam, e se colocar no lugar delas... e no seu. Você escreve muito bem !
ResponderExcluirQue experiência?! Diante de suas vivências aqui relatadas surgiu me uma pergunta: ¨o que deve se esperar da velice?¨
ResponderExcluirJefhcardoso do
http://jefhcardoso.blogspot.com