terça-feira, 9 de abril de 2013

Bendito o que vem em nome do Senhor

Era domingo de Ramos, enquanto o Papa Francisco cortejava o Senhor desde a Praça de São Pedro, na paróquia do bairro, o Miguel cortejava a cabeça dos seus amigos com seu ramo. Quando estes se viravam, encontravam-no mirando a cruz piedosamente e mexendo os lábios, menos cantando “Hosana nas alturas”. O incenso subia em meio à procissão. O dia da “missa fora da igreja” era o seu favorito, além do quê, não conseguia ficar sentado por muito tempo, tinha o capeta.
Neste dia, especialmente, o garoto estava impaciente: não via a hora que chegasse a leitura do Evangelho! Fora convidado para segurar a pastinha e fazer parte do coro na leitura dramática da Paixão. Queriam fazê-lo coroinha. Pelo menos ajudar o padre seria mais divertido.
Enquanto sua hora não chegava, examinava as pinturas no teto do templo, distraído.  Viu-as no momento exato em que o Anjo esquivou-se à marcação do adversário e partiu com a bola para o ataque. Virou-se para os fiéis para garantir que todos acompanhavam o lance. O padre levantou-se. Todos se levantaram. Preparou um grito de gol, engoliu-o... A assembleia começou a retirar as pastinhas de debaixo dos bancos. Também retirou a sua e abriu-a rapidamente. Limpou a garganta audivelmente. Adquiriu postura religiosa.
Sabia que a indicação “Ass.” em negrito antecedia sua fala, e a sabia de cor. Quando chegou sua vez, franziu a testa e disse bem forte, com a pastinha em punho: “Fora com ele! Solta-nos Barrabás!”. Olhou com orgulho ao redor, certificando-se de que todos o assistiam. Deu uma risadinha de canto e baixou de novo os olhos sobre a pasta. Mais outra fala difícil, e ele gritou com convicção: “Crucifica-o! Crucifica-o!”. As palavras lhe inflamavam no interior. Não entendia com certeza o que significavam, mas sentiu-se profundamente emocionado quando Jesus “entregou o seu Espírito e expirou”. A parte do “expirou” também lhe passou incompreensível, apenas sentiu vontade de se ajoelhar com o resto do povo.
Miguelzinho vocacionava definitivamente ser o novo coroinha, quem sabe até padre. Estava muito feliz por ter ajudado Jesus.


sexta-feira, 22 de março de 2013

Fui atender e não era o meu amor


Eu atendo telefonemas: nome da empresa, meu nome, bom dia! É um serviço simples e bacana. Quase sempre a ligação não é para mim, então, como é do ramo, tenho que estar transferindo-a.
Aprendi a diversão da atividade em outro emprego, quando fazia isso para uma agência de RH. Os candidatos se dirigiam a mim como se eu fosse praticamente o empresário que os ia contratar. Não deviam imaginar que era um moleque de bigodinho. Então sorria por dentro e impostava a voz para garantir-lhes que analisaria com carinho o currículo, até lhes elogiava as aptidões. Também me relacionava por telefone com os clientes. Fiz verdadeiras amizades: “Oi, Sirlene, como foi seu final de semana? Você me passa o sinal de fax?”. E algumas paqueras. A curiosidade me fazia imaginar como seriam as donas das vozes. Sabia quem eram as bonitas, as que com certeza eram feias. Aprendi a ter voz de gente interessante ao telefone. Daria até pra locução, ou pornografia.
Atendi uma dona tão entendida do assunto hoje, que quero dedicar-lhe as lembranças dos parágrafos acima. Não era bonita, mas muito convincente. Falava solta, toda “bom dia”, como se eu fosse seu vizinho de muro. “Então quando estiver por aí procuro pelo senhor, tá, seu André”. Tomei até um café depois que pus o aparelho no gancho.
Brincava com estas ideias, agraciado pela simpatia matinal da minha vizinha de muro, até a segunda ligação me soar como um despertador. Nome da empresa, meu nome, bom d... Fui alvejado por uma metralhadora. Não conseguia sequer distinguir a direção de onde me vinham os tiros. Porque o filho estudava na Anhanguera Educacional comia marmita a tia Ângela doente não tinha quem cuidasse um carro só para toda a família tomava ônibus que está caro “não tá?” a perua não passa no bairro e a declaração de estudante do irmão caçula não se dá bem na escola nova as matrículas estavam encerradas no próximo final de semana queriam descansar.
Fiquei indefeso, nem um “ei, ei, ei”, para, porra! Olhava os colegas ao redor. Pude apenas gesticular, girar o dedo em volta das orelhas para que entendessem que fora pego por uma psicopata e precisava de socorro. Bati uma dúzia de vezes com a cabeça sobre a mesa. Devo ter perdido a consciência, não sei precisar quanto tempo se passou.
Como de costume, a ligação não era pra mim. Injustamente abatido, disse com a voz insegura enquanto ela não parava de falar: “aguarde que vou poder estar te transferindo”, e desliguei.


terça-feira, 19 de março de 2013

A dona leal


A fonte é de confiança. Apenas não a revelaremos para poupar-lhe o constrangimento do episódio. Sobre ela, diremos somente que é funcionária em aviso prévio de um estabelecimento alimentício onde os produtos nunca perecem. Mas quem etiqueta os produtos nas prateleiras e substitui as datas de vencimento é outro funcionário, ela é responsável pelo almoxarifado.
A informação é dispensável, mas a funcionária diz que a dona do recinto é mão de vaca. Somente ela (a dona) opera o caixa da loja, e não sai de lá nem para fazer cocô. E se a conta de um cliente fica em 54,10 e ela recebe 55,00, devolve-lhe 0,90. Mas, caso a conta fique em 54,90 e ela receber os mesmos 55,00, guarda-os na gaveta e diz obrigada. Isto também é dispensável em vista do seguinte.
Seu filho morreu. Era novo, não tinha vinte anos. Foi de acidente. A fonte não trabalhava na empresa na época, mas a história é passada a todos que cumprem experiência ali. Contam que para não abandonar a registradora, a dona e mãe do menino falecido foi ao velório depois do horário comercial, às 18 horas.
Também seu marido faleceu. Por sorte, se pode dizer isto, em dia em que a loja estava fechada. Mas antes de morrer passou momentos com sua senhora, a dona. Adoecera gravemente, então ela, que o monitorava desde o caixa da loja, ligou para o amigo motorista, que cobrava 10,00 a corrida, contra os 200,00 do serviço médico ambulatório, e foi levado de carro para a UTI.
Foi visitado pela esposa, claro, às 18 horas. Seu estado era fatal. Confundiu-lhe o nome, chamou pela mãe, disse coisas sem sentido. A morte chegaria apressadamente. No dia seguinte, na loja, uma tristeza se abateu sobre todos os funcionários. Ele sim era um homem bom, ao contrário da patroa mão de vaca. Todos choravam, diz a fonte, e a dona ligou para o cemitério. Desde o caixa pediu a conta da família. Eis que à tarde volta o moribundo do marido trazido pelo amigo. Debocha da dona: “pensou que eu ia morrer?” e tampa uma risada com a mão. “Ainda te chamei pelo nome da minha mãe, você viu?”, riu sem esconder-se. Que vingança. Os funcionários estavam chocados, como se tivessem visto um fantasma, e experimentavam um orgasmo por dentro. Bem feito. Também era deles a vingança.
Morreu em dia de domingo. Além de passar o dia de folga com o marido falecido (aprendera a lição), ligou para a funcionária que nos relata a história e encomendou-lhe um serviço extra. Ditou-lhe uma nota falsa para que se publicasse nos jornais. Nela, o esposo agradecia para sempre a mulher amada e dona da loja pelos anos de lealdade, dedicação e amor. “Parto com imensa gratidão, etc, etc, etc”.
A vida na loja continuava, com a dona sentada ante a caixa registradora, e seus produtos eternamente no prazo de validade. 


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O apelido da Rosa


Apelidos evoluem como assinaturas. Eu assino o nome completo, mas já tive que comparecer ao 2ª cartório para reescrevê-lo, viraram três rabiscos. Os apelidos também evoluem assim.
Herdei do meu avô a ocupação de dar apelidos, não aqueles de oportunidade, que nem Ranho, Cabeção, mas como chamo minha irmã Gabriela, por exemplo: Pana. É olhar pra pessoa, pimba, a alcunha vem naturalmente. Deve ser um dom.
Meu avô também chamava aos outros Picau, Guarú, Mosquito à minha prima. A mim ele chamava Negrão. Sou quase nego, mas ele tinha essa fixação, chamava “ô, Negrão” toda hora. Cansava de perguntar “que foi, vô?”, e ele não responder nada, ou responder “ô, Negrão” de novo. Também chamo “ô, João” ao meu irmão Tiago, igualzinho. É tão interior como a caligrafia.
Não se trata de abreviar tampouco, que nem Zé, o que rola é uma total transformação. João era Churk... Chur... virou João. O José, apelido do Pedro, veio de Peterson Foca. O Pluck tentou evoluir, virou Plão, mas foi mal sucedido e continuou Pluck. E teve a Glomer, que era o apelido da Gabriela quando passava Punk, a levada da breca. Virou Chita. Parei de chamá-la assim sob a ameaça de cascudos da minha mãe. Mas Pana todo mundo gosta. Agora estamos na fase da evolução em que chamo “ô, Mildes” à Romilda, apelido carinhoso da Camila. Tem vocação pra virar outra coisa.


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Por detrás da feiura


Não era bonita, simplesmente. Nem de frente e, desconfio, nem de costas. Mas buzinaram-lhe às espaldas. Um caminhão, por sinal. A mulher caminhando com a sacola desvendou um sorriso tão ridículo, tão íntimo – não merecia que a tivesse visto nesse momento, a feia. Então contive meu sorriso, mais ridículo ainda, e o gozei assim que ela passou. Estava bonita, danada. 



quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Pertencia à Realeza, sem dúvida, uma dama


Devia estar voltando do seu passeio matinal, tomado ar fresco, cheirado flores. Esperava o ônibus na parada do Jardim Botânico. Levantou a mão para pedir embarque, assinalando que entraria pela porta traseira, era senhora, tinha direito. Subiu, saudou a todos os passageiros cordialmente e prestou homenagem ao motorista: “Em vez de abrir a porta fica olhando pro meu cu, arrombado!?”. Depois continuou presenteando a todos com delicadezas... “Calor do caralho, vou ficar pelada nessa porra!”.
Uma pena que o ronco do motor competisse com aquele desfile de poesias. Ainda consegui ouvir, entre uma troca de marchas: “passo a faca naquele filho da puta todinho...”.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O perdão do bêbado


A pior das ressacas é a ressaca moral. Quando se acorda com um “puta que pariu, que merda eu fiz?” e jura nunca na vida pôr outro copo de cerveja na boca: viva o poder desmoralizante do álcool. Mas vi sujeito sobressair-se ileso de igual inconveniência.
Viajava de ônibus pra uma cidade do sertão, coisa de trinta horas de estrada. Ocupava sozinho duas poltronas e, atrás de mim, ocupava as outras duas uma família de quatro pessoas. Em trinta horas trocamos bem uma dúzia de fraldas – sim, porque era tanta intimidade que me faltava limpar a bunda dos cagões – enquanto o papai mamava na cachaça.
Em uma parada de posto, no meio da madrugada, acordo, mais todo o pau de arara, com o motorista surtando com o diabo do bêbado: “Olha que da próxima vez que se atrasar fica na estrada, cabra!”. O rapaz resmungava qualquer coisa no seu dialeto, e a patroa se pôs a discutir por que ninguém o levava a sério, seu bêbado imprestável.
– Por que tu só faz beber, seu traste, tu não é homem!
– Ah, e é? Pois te digo uma coisa: “eu sou bêbado...”.
Fez uma pausa grave. Não sei o que esperava. E não só eu, mas, pareceu, todos esperaram por um ato de auto piedade. Até os cagões fizeram silêncio junto da mãe. O cristão ia falar...
– Eu sou bêbado – disse em tom de confissão. – Mas meu pinto é bem grande!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Camila Camila

Como a proporção demanda, uma simples ida a missa precisa ser ajustada com horas de antecedência. Para saírmos às 5 e meia, por exemplo, e chegarmos às 6h na igreja, começamos a nos banhar às 3 e meia e ainda forçamos a colaboração. 

Pois, com apenas um minuto sobrando para a partida a Camila grita (o que é normal, mas neste caso quer demonstrar pressa): "MÃÃE, ARRUMA MINHA PULSEIRAA?!!". Nossa mãe, que a essa altura fazia o último ajuste no visual, passa a bola na fogueira para o papai. Mas craque é craque. Na iminência de perder o lance a Camilinha sai correndo e em vez de fazer o mesmo pedido grita lá do fundo da casa: "PAAI, VOCÊ TÁ DE ÓCULOS?".


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Retrato de família

Chove. Os viadutos da cidade servem de abrigo para funcionários públicos jogarem truco. De trás do vidro embaçado do carro me escapa uma risada besta: “esses bichos são folgados”, penso, “fazem bosta nenhuma!”. A risada é por outro motivo.

Lá em casa as janelas são muito grandes e os passarinhos vivem batendo com a cabeça nos vidros. Alguns batem com tanta força que morrem imediatamente. Na casa há tantas janelas que dispensam o uso de porta. Por consequência, o portão de entrada também vive aberto. Às vezes, quando chove, algum desses funcionários esquece sua marmita na garagem...

Essa tranquila displicência não é privilégio da casa e suas janelas abertas para o horizonte em verde mato e os visitantes ilustres. O portão antigo da Barão de Teffé também escapava à nossa vigilância.

As crianças ficavam sozinhas por um período e a falta de quintal as punha na frente da tevê. Ficavam muito bem, obrigado, até a irmã mais velha chegar!!! Furiosa, passa a mão no telefone: “PAAAAAI, corre”. Não houve “ahh, mas ele” que aplacasse a censura: "Crianças, entendam, mendigos só podem assistir tevê junto com a autorização do papai e a mamãe"...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Francisco Morato ou eu te mato

Acostumado ao luxo do fretado – às sonecas nas poltronas, ao cheiro das meninas das faculdades de arquitetura e direito, ao ar condicionado, ao silêncio, ao, ao, ao, enfim – em meu último semestre de faculdade tocou-me (por trás) substituí-lo pelo transporte férreo, ou seja, ferro na minha bunda!  
“Sufrér, chicrete traidente, 1 real” à margem da legalidade apenas contrapõem a condição desonesta legada aos usuários da Linha Rubi do Transporte Metropolitano de São Paulo, a mais fudida.
Meu trajeto levava duas horas e, na melhor das viagens, à hora do almoço, dava até pra sentar no chão. À volta não. Seu Newton que me desculpe, mas, o cu dele que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço! Cada um tem a sua tática! Eu, entre passivos e ativos, preferia tomá-lo em sentido oposto até a estação final, perder mais uma hora e ocupá-lo vazio, a perder minha donzelês...
Com tanta sacanagem um dia a vaca ia pro brejo! Quem começou foi uma senhora de sessenta anos.
À estação de Caieiras fomos desembarcados com o aviso de enchente na linha próxima. “Esse trem não prestará serviço, queiram desembarcar”, dizia o falante da companhia, enquanto nosso porta-voz gritava: “ninguém desce dessa porraaa!”, e ninguém descia, claro. Chovia pra caralho.
A tensão durou horas até que a companhia, sem ter o que fazer com tanta gente na plataforma e vagões, resolveu tocar a locomotiva de volta pra Capital!
Pois essa inocente senhora, com sua muambinha entre os braços, dependurou-se pra fora da janela em contato com a cabine e surtou: “Seu 'motorista' filho da putaaa, eu paguei 2,65 e você vai me levar pra Francisco Moratooo, ou eu te mato!”. A sequência foi uma session de voadoras na lata da cabine que amassava a cada golpe.   
O trem parou. Maquinista fugiu pro meio do mato. E nós, vingados, voltamos a pé pelos trilhos.